Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos não eram inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Não durma, disse-me ele.
— Não durmo, respondi com esforço; estou apenas meditando o último verso.
— O último verso era: 'E a lua verte o seu clarão de prata...' Como é que medita uma coisa tão simples?
— Medito na simplicidade, respondi; a simplicidade é a maior de todas as complexidades.
No dia seguinte, encontrei-o na rua e ele chamou-me de 'Dom Casmurro'. O apelido pegou. Não te zangues com o apelido. Os apelidos são os títulos que o povo nos dá de graça, sem que precisemos pagar selo nem propina.
